Sobral Bendito pertence à freguesia de Pessegueiro. Pessegueiro, tal como muitas das aldeias do concelho de Pampilhosa da Serra, é uma povoação localizada na meia encosta das vertentes das serras de xisto que se estendem para lá dos limites administrativos desta região e que são o elemento fundamental da sua identidade.
Os povoados destas serranias resultam, na opinião de vários autores, de uma dispersão das construções motivada pela fixação desde a Idade Média das diferentes famílias nos locais mais favoráveis à agricultura. Aproveitavam-se os pequenos espaços localizados nos vales, onde o menor declive, o acesso a água e os melhores solos favoreciam a sua utilização como campos de cultivo e construíam-se as casas de habitação nas vertentes próximas mais abrigadas. Nestes locais espalhados por toda a serra nasceram pequenas aldeias com fortes relações sociais e económicas entre eles, suportando populações reduzidas e com laços familiares. Cresceram apenas aquelas onde o desafogo da localização, a posição face a vias de comunicação ou a possibilidade de diversificação dos meios de subsistência (para a pastorícia, por exemplo) permitiam a fixação de uma população mais numerosa.
Este foi o caso de Pessegueiro, aldeia centenária, cujos primeiros habitantes podem ter sido cristãos que permaneceram nesta região após a Reconquista, beneficiando de privilégios régios aos que se fixassem nestas áreas inóspitas. O facto de contar já com 72 fogos em 1757 e da sua igreja matriz ter inscrições datadas do século XVI demonstra a antiguidade da povoação.

O núcleo original da aldeia localizou-se concerteza na parte baixa, próximo da ribeira, sendo constituído por casas de xisto de pequena dimensão, com dois andares nas de famílias de mais posses, cujo rés-do-chão se destinava aos animais e às ferramentas agrícolas, sendo o primeiro andar reservado à habitação. A constituição de um segundo núcleo mais acima na vertente e mais próximo das propriedades localizadas nos troços a montante da ribeira deverá, de acordo com os relatos dos mais idosos, ter sido posterior e o seu desenvolvimento inicial terá ocorrido na zona do Pereiro, cujas principais casas já não existem e junto à Eira.
Tínhamos, assim, até à segunda metade deste século, Pessegueiro de Cima e Pessegueiro de Baixo como dois núcleos perfeitamente demarcados, altura em que a construção de uma estrada de ligação reuniu os aglomerados fisicamente e permitiu o surgimento de construções que hoje retiram qualquer sentido à distinção.
Entretanto, assistimos à ascensão e declínio de uma sede de freguesia que em 2001 contava apenas 218 resistentes. No século XX verificaram-se as rupturas que transformaram definitivamente o modo de vida destas comunidades, mantido quase inalterado desde a sua formação. Desde a transição do século XIX para XX, algumas famílias integravam já a corrente emigratória para o Brasil. Por outro lado, os primeiros contactos com a autoridade do Estado com verdadeiro impacto nas populações acontecem provavelmente com o recrutamento dos jovens para a Primeira Guerra Mundial. A partir desta época, intensifica-se de modo irreversível a saída de população e consolida-se o estatuto de Lisboa como destino preferencial. Tanto assim, que no momento de maior intensidade das migrações, em Pessegueiro como no conjunto do país, afirma-se a especificidade desse movimento que caracteriza a nossa região: essencialmente dirigida para Lisboa, fixando-se nos bairros populares e empregando-se num conjunto de sectores específicos, com destaque para o estabelecimento por conta própria no ramo das sucatas.
É neste contexto que o movimento regionalista se afirma pelas mãos de Pessegueirenses ilustres e, se no caso da nossa aldeia, ele nasceu ainda na década de 30 (com a fundação da Liga de Melhoramentos da Freguesia de Pessegueiro a 29 de Janeiro de 1939), a sua actuação foi particularmente importante nas décadas de 50 e 60. Ao seu trabalho incansável se deveram, nomeadamente, o abastecimento de água, o fornecimento de electricidade e a instalação de telefones numa época em que estes eram considerados privilégios e em que as autarquias locais não possuíam quaisquer competências nestas matérias.
Essa acção não se ficou por aqui e estendeu-se para a construção de equipamentos de lazer (Recinto de Festas, Parque Fluvial), de acção social (Centro de Dia), espaços públicos (Parque da Capela, jardins junto às “almas” e junto ao monumento da Liga de Melhoramentos), ou recuperação do património (Igreja Matriz, Escola Primária). Para isso contribuíu definitivamente o património legado por um habitante da aldeia vizinha do Carvoeiro, pertencente à freguesia, gerido hoje com o objectivo de desenvolver acções coordenadas com as outras entidades intervenientes neste território (autárquicas, comunitárias) sobre os domínios-chave para o desenvolvimento da aldeia perante os desafios modernos.
Para o futuro de Pessegueiro, esta aldeia conta com um vasto património, que constitui a sua riqueza e o seu maior trunfo. Este património é mais do que os seus edifícios notáveis (as típicas casas de xisto, os pitorescos edifícios religiosos - duas capelas e uma igreja –, os verdadeiros equipamentos colectivos perfeitamente integrados na paisagem que são os múltiplos lagares e moínhos da povoação); são um modo de vida feito de tradições, celebrações, produtos regionais e, principalmente, os aspectos naturais e humanos na sua origem.
Os Pessegueirenses souberam organizar a sua vida em sociedade para enfrentar as dificuldades do meio em que viveram através da colaboração e da convivência como comunidade. A comemoração do padroeiro S. Simão com um bodo oferecido a toda a população da freguesia pelos mordomos era uma forma singela de unir todos os habitantes que se celebra até hoje no último domingo de Outubro. A Festa de Nossa Senhora de Lourdes, se bem que mais recente, e ligada já a essa abertura a influências externas é também centenária e tornou-se no principal momento de encontro, que evoluiu do baile no terreiro junto à Capela Velha em torno das concertinas e guitarras e do lume do botequim, para uma das mais animadas festas de Verão do concelho. À actividade agrícola estavam ligadas tantos outros convívios: as tibornas após a apanha da azeitona, as desfolhadas do milho, a matança do porco, a reunião em volta do alambique para destilar a aguardente de medronho. Os produtos agrícolas determinam também as principais iguarias gastronómicas: a broa e os carolos de milho, a chanfana de cabra e os produtos do fumeiro.
Não é, assim, de estranhar a importância do lagar e do moínho comunitários da povoação e, a esse propósito, surge a referência à mais importante condição natural que deu a Pessegueiro a sua especificidade: a água. A Ribeira de Pessegueiro foi a razão de ser original desta povoação, no seu nome (vindo da palavra “peixe”, piscis em latim), na sua morfologia e no seu desenvolvimento, daí a peculiaridade de tão grande número de engenhos ao longo do seu curso e da sua vitalidade na dinamização da aldeia (hoje, na componente turística e de lazer). O cariz montanhoso é o outro responsável pela beleza das suas paisagens.
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